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quinta-feira, 5 de abril de 2012

AVIAÇÃO-"Sucata humana" espera compreensão do Governo




PERCY RODRIGUES

A excelente matéria elaborada pelo jornalista Roberto Kaz na Revista O Globo (http://cnj1.myclipp.inf.br/default.asp?smenu=ultimas&dtlh=8324&iABA=Not%EDcias&exp=)
com o título “Sem plano de voo”, certamente, mexeu com o emocional dos ex-funcionários da extinta Varig.

Em estilo literário bastante ousado, de linguagem permeada pela função poética, o autor esbanja metáforas, símiles e outras figuras , para descrever como foram os últimos dias da frota de Boeing 727-100 da Varig, apodrecida em áreas remotas do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.

O fato não provocaria maiores emoções se, em cada retalho de parte do que foi a maior frota de aeronaves do país, não contivesse a história de milhares de aeroviários e aeronautas, ex-funcionários da chamada Pioneira: os desempregados, sem receber até hoje suas indenizações, os aposentados, em estado de penúria em razão do calote provocado pela intervenção predatória no fundo de pensão Aerus, determinado, intempestivamente, pelo governo federal.

Evidentemente, não se deve esperar que a Justiça faça com seres humanos o que deliberou fazer com carcaças de velhas aeronaves, deterioradas ao limite pela paralisação das operações da grande aérea, que interrompeu também o sustento e sonhos de milhares de famílias brasileiras.

Desaparece o cenário de abandono da sucata dos bens materiais, mas permanece inalterado o purgatório de almas prejudicadas pela insensatez das autoridades, vivendo a expensas de amigos e parentes, muitos portadores de doenças físicas e psicossomáticas.

Contudo, ainda há tempo para corrigir tamanha tragédia social. Adormece nas prateleiras do Tribunal Superior de Justiça, ação indenizatória, promovida pelas empresas participantes do Aerus, de perdas tarifárias provocadas por política de congelamento de preços em governos anteriores, considerada procedente nas várias instâncias da justiça federal, mas que nossos magistrados recusam-se a autorizar o cumprimento, sem nenhum fundamento legal, certamente, por razões políticas. Parte do valor da indenização, por determinação do juiz que patrocinou a recuperação judicial da Varig, será destinada ao Aerus, para dar sobrevida às pensões dos assistidos.

Espera-se, assim, que brasileiros que contribuíram durante anos para o fundo, em busca de vida digna na aposentadoria, não tenham o mesmo destino das carcaças dos Boeing 727-100.

Comentário:
Dói, dói muito ver a situação atual dos profissionais que fizeram a aviação aqui no Brasil, tambem é doloroso ver estas maquinas maravilhosas virar “panela”. Reproduzo o texto que esta no livro 27 anos um mês e 14 dias de minha autoria, que acontecia no Boeing 727 quando efetuávamos voos cargueiros nas madrugadas.

“Segundo os entendidos os melhores locais para observar a enorme quantidade de estrelas presentes no universo é longe dos grandes centros urbanos onde a poluição atmosférica e luminosa é muito pequena, eles, os entendidos estão enganados. Quando voando á noite em altitudes superiores a quarenta mil pés (+-12000m) e com ótimas condições de visibilidade, eventualmente desligamos todas as luzes na cabine de comando ficando totalmente as escuras, quando a vista se adapta a falta total de luz a quantidade de estrelas que se avista e pelo menos três vezes maior que em qualquer dos melhores pontos de observação em terra, porem sem duvida a sensação mais fantástica e a estarmos voando entre elas, pois mesmo olhando para baixo somente estrelas são vistas, é como se o planeta não existisse, isto ocorre devido á curvatura da terra e também pela posição das janelas na cabine.”

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Lembranças de um herói do ar



Publicada em 08/11/2010 às 18h07m O Globo
Artigo do leitor Benito José Mussoi
Quase ninguém lembrou, mas no final do mês de outubro faleceu aqui no Rio de Janeiro, aos 90 anos, um personagem memorável da história da aviação civil brasileira. Trata-se do ex-comandante e diretor da Varig Goetz Hertzfeld.
Nos idos de julho de 1949, o comandante pilotava um avião de passageiros que voava entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre, transportando um grupo de universitários que retornavam de uma viagem à Bahia. Quando faltavam poucos minutos para a chegada e o avião já sobrevoava a Serra Gaúcha, começou um incêndio a bordo, que obrigou o comandante a fazer um pouso de emergência no meio de uma floresta.
Entre os passageiros estava um jovem estudante que possuía de brevê de piloto civil. Ao notar a situação de perigo, o rapaz prontificou-se a colaborar, segurando a porta principal do avião, a fim de evitar que a mesma empenasse com o choque do pouso forçado e impedisse a saída dos passageiros.
Enquanto isso, a fumaça inundava a cabine de comando, tirando a visibilidade do piloto. Como naquela época os aviões ainda não eram a jato, tampouco pressurizados, o comandante Goetz abriu a janela dianteira da cabine para executar a crítica manobra do pouso forçado. Com a forte corrente de ar gelado gerada pela abertura da janela, o comandante teve seu rosto inteiramente queimado.
A manobra de emergência foi um sucesso, e poupou a vida de quase todos os passageiros. Porém, com o choque do pouso forçado, o estudante que ajudava na porta foi projetado para fora do avião, morrendo instantaneamente. Ele era filho de um importante advogado e político gaúcho, Adroaldo Mesquita da Costa, que então era o Ministro da Justiça do Brasil.
Trágica e ironicamente, foi o próprio Adroaldo quem foi ao hospital em Porto Alegre entregar ao comandante sobrevivente uma condecoração especial da Governo brasileiro.
Por ter tido a oportunidade de ser apresentado, anos mais tarde, ao Comandante Goetz, quando ele exercia o cargo de Diretor de Operações da Varig, sinto-me motivado a lembrar este trágico e heróico fato, que emocionou o Rio Grande do Sul há mais de 60 anos. Que sirva como memória, além de manifestação de respeito e solidariedade às familias Hertzfeld, Mesquita da Costa e demais vítimas deste episódio.

sábado, 6 de março de 2010

Sem teto para voar - Cora Rónai




Podíamos até ser de quinta, mas a Varig era de primeira.

Houve um tempo em que o Brasil era um país subdesenvolvido. Ora, como era muito triste ver tanta gente desenvolvida vivendo num país subdesenvolvido, um gênio desses que andam por aí achou a saída perfeita para o problema: inventou uma nova expressão e passamos a ser um país em desenvolvimento, coisa que em muito melhorou a auto-estima das gentes. Isso se deu mais ou menos na mesma época em que gênios de outras partes do mundo criavam o termo "terceiro mundo" – que, aliás, nunca entendi direito, não por não saber diferenciar o primeiro mundo do terceiro, mas por nunca ter descoberto quem seria, ou onde ficaria, o segundo.

Ainda assim, quando viajávamos, continuávamos sendo cidadãos de quinta, pois o país em desenvolvimento não permitia que tivéssemos cartão de crédito internacional. E, por conta da diferença estratosférica entre o dólar "oficial" e o dólar em pessoa, o verdadeiro, éramos limitados à compra de meia dúzia de dólares por viagem. Para quem ia a negócios ali na esquina, rapidinho, até funcionava; para quem saía de férias e pretendia passar o mês viajando, mal dava para a saída. De modo que, viva a marginalidade!, éramos todos obrigados a recorrer a doleiros.

Viajar carregando na carteira aquela dinheirama era arriscado e angustiante. Tinha quem escondesse tudo na meia ou na cueca (Genoíno não inventou isso, é calúnia), usasse bolsa por dentro da blusa, bolsos falsos por dentro das calças e outras tantas precauções mais ou menos inúteis. E essa atrapalhação toda ainda não era nada diante da diante da dificuldade de se alugar um carro sem cartão de crédito. Éramos obrigados a deixar as passagens nas locadoras, além de um depósito milionário, como garantia de bom caráter. O subtexto era claro e, de resto, plenamente justificável num mundo capitalista: não tem cartão de crédito, não tem qualquer outro crédito.
* * *
É claro que nem todo brasileiro passava por esses perrengues. Já então, gente de governo e políticos não se apertavam. Cartão internacional era com eles, com a vantagem de que nem ao menos pagavam a conta. A tradição, como se vê, vem de longe. Mas, assim como há o bom e o mau colesterol, havia também as boas exceções. Qualquer cidadão do maravilhoso país chamado Classe Média Alta que tivesse 50 mil dólares sobrando podia abrir uma conta lá fora e conseguir um cartão de crédito para circular feito gente pelo mundo civilizado. Era ilegal, e daí?

Eu pertencia ao time dos que tinham um bolso "secreto" costurado dentro dos jeans. Muitas vezes deixei de alugar carro para não passar pelo constrangimento de entregar à locadora a passagem e todos os meus bens terrenos. É um dos meus orgulhos de pobre; viajar como lixo nunca foi a minha idéia de um bom programa.
* * *
Andei me lembrando disso porque o crime cometido contra a Varig voltou ao noticiário. Retórica à parte, a Varig nos tirava do terceiro mundo e nos elevava, no melhor sentido, a outras alturas. Impossível não sentir orgulho ao chegar a qualquer aeroporto do mundo e, ainda lá de cima, avistar as "nossas" aeronaves lá embaixo.

E as agências? Não me lembro de ter passado por qualquer capital onde não houvesse uma bela agência da Varig, sempre bem localizada, sempre com água, cafezinho e bons atendentes em bom português, verdadeiras embaixadas informais, não raro mais acolhedoras e mais eficientes do que as oficiais.

Por trás, porém, havia o que sempre há por trás das nossas administrações. Já conhecíamos bem alguns dos pecados da Varig, da rasteira na Panair à demora em criar um programa de milhas. Hoje, sabemos que voávamos numa espécie de tapete mágico, numa quimera que, na realidade, estava afundada em dívidas.
* * *
Acontece que, a despeito disso, a Varig tinha algo muito mais precioso do que os seus aviões, prédios e outros bens materiais. Tinha uma experiência incomparável de Brasil. Sabia voar, porque tinha um time de profissionais extraordinários, que não se cria da noite para o dia. Enquanto a Varig viveu, a aviação brasileira funcionava, e inspirava confiança nos viajantes.

Qualquer guru da economia pode provar o contrário em meia dúzia de frases, mas estou convencida de que dinheiro não é tudo, nem na vida das pessoas, nem na dos países. O know-how da Varig; o conhecimento acumulado da sua maravilhosa rede de comandantes, engenheiros, comissários, mecânicos e funcionários de todo o tipo; tudo isso era um bem do Brasil, que qualquer governo decente e com um mínimo de visão teria lutado para manter.

Aos poucos, começa a vir à tona a história do assassinato premeditado de uma das mais queridas empresas brasileiras. Tarde demais. A Varig já não quer dizer nada. Os profissionais de que o país se orgulhava estão espalhados pelo mundo, a malha aérea que tão bem cobria o país se desfez, os preciosos slots dos aeroportos internacionais se perderam. Meia dúzia de compadres ficaram riquíssimos; o Brasil ficou incalculavelmente mais pobre.

Cora Rónai (O Globo, Segundo Caderno, 12.6.2008)

Colaboração João Angelo